Perrengue à grega

Como alguns leitores já sabem, eu tenho uma relação de amor e desavença com a Grécia. Pois é, gente… hoje venho com uma história (quase) trágica que passei neste (nem tão) adorável país, para que vocês possam entender um pouquinho do meu estresse por este país.

Eu estava passeando pela Grécia durante o inverno europeu, lá pra região norte, em uma cidade chamada Thessaloniki. Todo o caos começou quando resolvi comprar um bilhete de trem de Thessaloniki para Sofia, capital da Bulgária.

Delícia de litoral na maior cidade ao norte da Grécia

Fui ao local onde há a venda desses bilhetes e pasmem, o lugar é enorme! Deu pra me perder muitas vezes até encontrar o guichê onde há a venda desses bilhetes. Quando chegou a minha vez, pedi ao vendedor que me desse uma passagem para Sofia, em um tipo de vagão dormitório, já que minha viagem duraria 6h e seria à noite.

Pois bem, paguei. E ele prontamente me entregou um bilhete totalmente em grego. Eu aceitei que o número 2 era a plataforma de embarque e que a minha cama era a de número 26, afinal números são números em qualquer lugar do mundo, né?!

Como toda cidade grande, tem seus lados bons e ruins

Chegou o dia da viagem e lá fui eu, empolgadona, encontrar o meu trem. Chegando na plataforma, percebi que era um lugar bem simpleszinho e como só tinha um trem parado, pensei: é esse, não tem como errar. Então eu subi e comecei a procurar o meu lugar.

Já de primeira encontrei o número 26, fiz uma cara de interrogação (porque na real era uma poltrona e não uma cama), mas sentei. Não deu dois minutos, já chegou um ser humano inacreditavelmente desagradável gritar comigo (provavelmente me xingando em grego), meio que querendo que eu saísse dali.

Daí como eu não ia retrucar em grego, só saí e fui pra outro vagão mesmo. E pasmem: tinha outra poltrona número 26! Sentei, né… iludida eu. Tomei outro esporro em grego, agora de uma senhorinha que apontava a bengala na minha cara. E ela tava com aquela cara de: “não é possível que você não tá entendendo, por acaso eu tô falando grego???”

Vista de onde me hospedei (bem no alto do morro)

Mudei novamente de vagão e novamente encontrei um número 26. Tá chato né? Tá bom de encontrar poltronas de números iguais. Eu comecei a perguntar bem alto se alguém ali naquele trem falava, inglês, espanhol, alemão, italiano ou francês e ninguém nem tchum pra mim. Eu estava perdida… até que um cara lá no fundo do vagão falou: “I speak english!”.

Nossa, meu coração se encheu de esperança! Fui até o cara e perguntei se ele sabia qual era o meu vagão e ele me respondeu sorrindo: “I speak english”. Daí eu respirei e falei mais pausadamente e ele: “I speak english”.

Eu simplesmente não tava acreditando no quanto Murphy estava me sacaneando aquele dia. Devo ter feito a maior cara de decepção da história!! Ele simplesmente só sabia essa frase!!!

Centro de Thessaloniki, enquanto eu ainda achava tudo lindo

Na hora em que eu já estava desistindo, um outro vagão se juntou ao trem e daí eu resolvi descer e voltar para a plataforma. Aproveitei e perguntei a um guarda se aquele era mesmo o meu trem e adivinhem só, ele NÃO FALAVA NADA DE INGLÊS também! Mas como eu já joguei muito Imagem & Ação na vida, consegui entender que era aquele mesmo. Bem nessa hora o trem se mexeu e eu achei que iria perde-lo.

Por sorte era só mais um vagão encaixando, o meu vagão!! Aí subi e encontrei uma pessoa que falava inglês e ele me explicou que todos os vagões iriam se desmembrar em alguma parte do trajeto e, por isso, tinham os números. Daí perguntei se o meu iria para Sófia, mas ele não sabia onde ficava… Foi nessa hora que o fiscal entrou e chamou pelas pessoas que haviam reservado os dormitórios.

Cartão postal da cidade

Assim que entrei, me deparei com um fedor de cigarro absurdo. Não dava nem para respirar naquele lugar! Esse mesmo fiscal veio conversar comigo enquanto fumava exatamente embaixo da placa que dizia que era proibido fumar. Eu estava incrédula com a Grécia!

Mostrei meu bilhete com o número do dormitório e ele me informou que eu teria que dormir no terceiro dormitório, ao lado do dele, pois o que reservei já estava ocupado há mais de um mês por uma família. Ainda não disse, mas eu tenho alergia à cigarro.

Entrei, reclamando, mas entrei. Haviam três “camas” suspensas, a janela estava trancada por causa do tanto de chuva e neve e se abrisse, molhava rápido as duas camas. Mesmo assim eu abri, porque preferia morrer de frio que asfixiada com o cheiro do cigarro.

Passado uns cinco minutos, tive a brilhante ideia de abrir meu saco de um quilo de tangerina. E descasquei todas elas e saí espalhando pelo chão do dormitório. Aquilo foi tão eficiente que o fiscal veio bater na minha porta, perguntando que cheiro forte de tangerina era aquele. Aí eu disse: é que não tem placa de que é proibido comer tangerina no trem. E fechei a porta na cara dele.

Resolvi mostrar parte da cidade pra vocês, porque no trem eu já não tinha mais nenhuma bateria nem na GoPro e nem no celular

Fui dormir e coloquei o despertador pra meia hora antes da previsão de chegada do trem à estação de Sófia. O problema é que eu dormi e acordei duas horas depois do que eu tinha programado. Quando abri os olhos e fui olhar a janela, desesperada, vi que o trem havia parado em lugar nenhum. Era simplesmente uma pequena faixa de cimento, com alguns canhões abandonados e muita, muita neve…

Daí eu pensei: paro na próxima estação, porque nessa eu não desço! Foram agoniantes trinta minutos até a próxima parada, mas ainda bem que tive essa ideia, porque a próxima estação era a de Sófia. Fui a primeira passageira a descer, aliviada por ter chegado e não ido parar no meio do nada. E com mais uma história pra contar.

Para esse e mais outros perrengues e dicas de viagens, acesse: www.instagram.com/tripbruta